Conecte-se conosco

Mundo

Falta profundidade na cobertura sobre feminicídios, diz pesquisadora 

Terezinha Silva disse que foram identificados avanços nas reportagens

Reportagens focadas em um crime específico, que ouvem apenas a polícia e não trazem à tona as raízes da violência contra a mulher na sociedade nem divulgam os serviços disponíveis para denúncia e proteção. Esse é um resumo dos problemas encontrados por pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em um trabalho de análise de mais de 800 reportagens publicadas sobre feminicídio no estado, entre 2015 e 2021.

A análise, realizada nos anos de 2021 e 2022, foi feita pelo grupo de pesquisa Transverso – Estudos em Jornalismo, Interesse Público e Crítica, do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC. O trabalho rendeu o podcast “História mal contada – Os feminicídios na cobertura jornalística” e também um documentário, com o mesmo nome, disponível gratuitamente no YouTube.

Coordenadora do estudo, a professora da UFSC Terezinha Silva, diz em entrevista à Agência Brasil que o objetivo do trabalho era avaliar como a cobertura dos veículos de imprensa no estado iria se comportar a partir da Lei nº 13.104/2015, que reconheceu o feminicídio como um homicídio qualificado que envolve violência de gênero.

“Houve avanços importantes a partir de 2015. O próprio uso do termo feminicídio, e a maior visibilidade dos crimes, o que é importante. E há casos em que a reportagem dá um serviço da rede de proteção e canais de denúncias, que são questões importantes”.

Apesar disso, a pesquisadora aponta que predomina na amostra analisada, segundo ela, uma lógica que prioriza a quantidade de matérias em vez da qualidade da cobertura, que tem a ver com o modelo de negócio dos veículos jornalísticos, a redução do número de jornalistas nas redações e outros fatores.

Agência Brasil: Além de a UFSC ficar em Santa Catarina, vocês também entendem que o estado se destaca de alguma forma nos casos de feminicídio?

Terezinha Silva: Santa Catarina é um dos estados que tem o número mais significativo [de feminicídios], segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A taxa é superior à média nacional, que é de 1,2 casos para cada 100 mil mulheres. Santa Catarina tem 1,5. Para nós, isso é bastante significativo. E, para além de ser uma amostra de um estado, também corrobora outras pesquisas que vêm sendo feitas há alguns anos em outros estados e com abrangência nacional. Então, essa pesquisa corrobora outros dados e outros limites existentes em relação à cobertura jornalística. Parece que tem certos problemas que a cobertura jornalística não consegue superar. Se mantém um certo modelo de cobertura que prioriza a quantidade de notícias a respeito desses crimes em vez de um aprofundamento, de pautas mais aprofundadas a respeito do problema que está na base dos feminicídios, que é a violência de gênero. A cobertura acaba tratando cada caso como se fosse um caso isolado, episódico, e não como parte de uma trama mais ampla.

Agência Brasil: Apesar de a pesquisa estar ancorada em dados de Santa Catarina, a reflexão alcança todo o Brasil?

Terezinha Silva: A pesquisa percebe aspectos dessa cobertura jornalística que é feita mantendo certos problemas. A gente percebe avanços também, é verdade, mas é uma cobertura que prioriza a quantidade à qualidade e aprofundamento no tratamento dessas pautas relacionadas aos feminicídios.

Agência Brasil: Esse é o ponto central do trabalho? Que a cobertura está voltada ao registro do episódio e às informações do boletim de ocorrência?

Terezinha Silva: Esse é o ponto central, e esse aspecto não chega a ser uma grande novidade, porque outras pesquisas antes de nós e feitas em outros estados ou com dimensão mais nacionalizada já apontavam isso. Esse é o modelo de cobertura jornalística do qual parece ser difícil a imprensa se desvencilhar. E por que é tão difícil para a imprensa tratar com um pouco mais de contexto, maior problematização, trazendo fontes diferenciadas? Uma limitação acaba levando a outra. Por que é tratado de forma tão episódica? Porque as fontes de informação geralmente são as mesmas, as fontes policiais. Então, é muito difícil dar uma outra dimensão ao problema se você escuta só a polícia e se ela é a fonte central da notícia. É claro que a polícia é essencial, fazendo seu papel para solucionar o crime, mas ela não é a única fonte que poderia ser acionada e falar sobre o crime. Falta essa iniciativa da cobertura jornalística.

Agência Brasil: Essa falta está ligada de alguma forma à precarização do trabalho do jornalista e à falta de jornalistas nas redações?

Terezinha Silva: Com certeza. É um problema muito complexo. Não dá para a gente apenas dizer que não estão fazendo a cobertura como deveria. Não é tão simplista. Tem uma série de fatores que dificultam essa cobertura mais adequada. E isso decorre de uma série de problemas. Um deles, com certeza, é a precarização. As redações estão mais enxutas, os jornalistas cada vez mais sobrecarregados e também há toda uma geração mais inexperiente e jovem. Quando a gente é mais jovem, também não tem tanta experiência para tratar de determinadas questões. Mas também tem um básico do trabalho jornalístico que não é feito. Vi matérias muito incompletas, sem informações básicas. E aí há uma série de limitações dos profissionais que estavam fazendo a cobertura, por uma série de motivos, inclusive a precarização do trabalho. E a gente percebe que também, cada vez mais, falta especialização, com o profissional tendo que cobrir várias coisas ao mesmo tempo, de todas as áreas e para todas as mídias.

Agência Brasil: São muitas questões do modelo de negócio dos veículos jornalísticos que acabam negando uma discussão necessária à população, então?

Terezinha Silva: Essa lógica da produção industrial, de produção em quantidade, é contraproducente no sentido de que não aprofunda nada. Então, a gente tem uma grande quantidade de matérias produzidas, mas o aprofundamento é quase nenhum. E não é que não haja visibilidade para o problema. Tem sim. Todo dia tem um caso sendo noticiado. O problema tem visibilidade, mas não chega nesse outro nível, de sair da visibilidade em termos de quantidade para uma abordagem com qualidade, que seria um segundo nível. A visibilidade foi um ganho importante nesses anos através da Lei do Feminicídio. A gente observou alguns avanços também.

Agência Brasil: O próprio uso do termo feminicídio foi um dos avanços que vocês destacam.

Terezinha Silva: Exatamente. Esse foi um avanço importante. Ele não era muito notável logo nos anos seguintes à lei, em 2016 e 2017. Em 2018, foi um pouco mais e, em 2019, começou a ser muito mais usado. Ele começa a ter um uso quase generalizado, não apenas no âmbito da polícia e do Judiciário, mas também dos próprios jornalistas. A gente viu coisas interessantes, como o fato de que, em alguns casos, mesmo quando a polícia não usava o termo feminicídio na matéria, os jornalistas usavam em um título. Não havia mais uma dependência de que, primeiro, a polícia precisa definir que é feminicídio. A cobertura passou a se apropriar de uma forma mais generalizada, e isso é muito bom, porque é um aprendizado social tanto dos jornalistas quanto dos demais atores encarregados de tratar desse problema e da própria sociedade, que está lendo aquela matéria. As pessoas passam a entender que a raiz desse crime é a violência de gênero, que não é um homicídio como qualquer outro. E tem outras matérias que, apesar de serem absolutamente factuais, são boas matérias factuais e trazem, por exemplo, um serviço com a rede de proteção que existe e os telefones de denúncia. Isso é importante também. Mas falta na cobertura um pouco mais de cobrança do Poder Público sobre o por que esses crimes continuam acontecendo com tanta frequência.

Agência Brasil: Outro problema que vocês apontam é que na pressa de registrar apenas o episódio, fontes qualificadas deixam de ser ouvidas, como pesquisadoras do tema e ativistas feministas. O que o leitor deixa de receber como informação quando o jornalista não ouve essas pessoas?

Terezinha Silva: Os leitores deixam de entender que as políticas públicas são uma luta de muitos anos, e que os movimentos sociais há muitos anos reivindicam essa rede proteção e sua ampliação. E também que cortes de orçamento, por exemplo, em estados ou na União, tiram recursos dessa área de prevenção à violência contra as mulheres. Ouvir os movimentos sociais e pessoas que pesquisam há muitos anos dá aos leitores essa dimensão do problema, que o crime não é isolado e faz parte desse problema mais estrutural. Que isso vem sendo discutido há muitos anos no Brasil. Os feminicídios não surgiram em 2015, a partir do momento em que a lei passou a nomeá-los desse jeito. Isso acontece há muito tempo e ganha visibilidade maior agora. Ouvir outras fontes ajudaria a entender também que, muitas vezes, há um ciclo de violências que desencadeou aquele feminicídio, que era algo que poderia ter sido evitado. Isso, muitas vezes, é apenas tangenciado pela matéria. Muitas mulheres já tinham feito mais de dez boletins de ocorrência. Há mulheres que já tinham medida protetiva, inclusive. E, se tinha medida protetiva, como foi assassinada? O que nós, sociedade, estamos deixando de fazer para impedir que esse crime aconteça? É preciso cobrar isso do Estado.

Agência Brasil: E alguns casos saem dessa regra de ser noticiado apenas como um episódio isolado. Por quê?

Terezinha Silva: A maioria dos casos recebe até três matérias relativamente curtas, factuais e com tratamento superficial, sempre muito restrito às informações policiais. Alguns casos se destacam dessa média, e fomos olhar o porquê. Porque são casos que envolveram muita brutalidade ou envolviam um certo status social, seja da vítima ou do agressor. Um exemplo: era um advogado conhecido na cidade. Mas, tem um outro ponto que é bastante interessante, que tem a ver com a mobilização da sociedade, de movimentos sociais. Isso acaba contribuindo para que haja uma discussão do problema, porque outras fontes acabam tensionando e pressionando para que aquilo seja tratado de modo diferente. Identificamos esses três fatores para que um crime tenha mais repercussão sobre outros.

Agência Brasil: E quando ele tem mais repercussão, a discussão sobre o feminicídio vem à tona ou não?

Terezinha Silva: O fato de ter mais repercussão não significa que tenha maior aprofundamento. Identificamos que, nesses casos que envolvem movimentos sociais, por exemplo, sim. Mas, nos outros casos, não necessariamente. Tivemos um caso em Joinville, que foi o que mais repercutiu em termos de quantidade de matérias na nossa amostra, em que a discussão em termos de motivação de gênero no crime foi zero. Continuou sendo limitado às fontes de sempre. A polícia, para tratar das investigações, e aos familiares e pessoas próximas, para falar sobre a vítima e sobre a relação deles. Isso até gerou um pouco de discussão sobre o histórico de violência, mas não aprofundou muito. E, depois, o julgamento faz com que um monte de matérias seja produzida, mas restritas ao resultado.

Agência Brasil: A chegada de mais mulheres às redações está contribuindo para uma mudança da forma de discutir violência contra a mulher na imprensa?

Terezinha Silva: Contribui, sim. Talvez não apareça tanto ainda, mas tende a aparecer mais. No material que analisamos, temos catalogado quem era a jornalista ou o jornalista da matéria que foi produzida. A gente não fez esse recorte de quantas matérias eram assinadas por mulheres e assinadas por homens, mas a gente pode dizer que tinham matérias assinadas por mulheres que tampouco traziam esse aprofundamento, assim como tinham matérias assinadas por homens que se mostravam bastante completas. Mas, por que eu acho que a representatividade tende a influenciar? Porque se tem uma nova geração se formando nesse contexto todo dessa última década, de uma discussão mais intensa sobre questões de gênero. Não quero dizer que antes disso não havia jornalistas mais velhas e mais velhos sem essa perspectiva de gênero. Não é isso. O que quero dizer é que mesmo as mulheres atuando nas redações enfrentam resistências ao tratar certos casos e a trazer discussões de gênero para suas pautas. A gente sabe que não é algo consensual, que há uma disputa interna nas redações.

Edição: Carolina Pimentel

Fonte: EBC

Continue Lendo
Publicidade
Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mundo

ApexBrasil leva startups brasileiras a eventos de inovação em Portugal e Emirados Árabes

Web Summit Lisboa e GITEX Expand North Star, em Dubai, vão conectar empresas brasileiras a investidores, clientes e parceiros estrangeiros

ApexBrasil leva startups brasileiras a eventos de inovação em Portugal e Emirados Árabes

O segundo semestre de 2026 reserva duas oportunidades para startups brasileiras apresentarem suas soluções ao mercado internacional, acompanharem tendências e se conectarem a alguns dos principais ecossistemas globais de tecnologia e empreendedorismo

Em novembro, a agenda será no Web Summit Lisboa 2026, em Portugal. No mês seguinte, empreendedores brasileiros participarão da GITEX Expand North Star 2026, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. 

As iniciativas fazem parte da estratégia da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) para aproximar o ecossistema brasileiro de inovação de mercados internacionais

A proposta é apoiar empresas e ambientes de inovação na apresentação de tecnologias e soluções desenvolvidas no país e, ao mesmo tempo, facilitar o contato com tendências, modelos de negócios, investidores e potenciais parceiros capazes de contribuir para o crescimento e a internacionalização dos negócios. 

A diretora de Negócios da ApexBrasil, Maria Paula Velloso, destaca que a participação em eventos internacionais pode abrir portas para além da captação de investimentos

“Você sabe o que todo investidor procura quando vem um evento como esse? Ele procura a solução para um problema dele. Então, é muito importante que as startups tenham uma ideia, mas execução é tudo. Você sabe o que uma startup precisa? Muitas vezes, não é de capital. Ela precisa ter acesso a distribuidores, investidores, parceiros e o principal, clientes que acreditem na sua ideia e que se interessem”, enfatiza.

Web Summit Lisboa

O Web Summit Lisboa 2026 será realizado entre 9 e 12 de novembro, na capital portuguesa. A conferência internacional reunirá startups, investidores, empresas e especialistas para discutir tecnologia, inovação e empreendedorismo.

Nesta edição, a ApexBrasil busca ampliar a presença internacional não apenas de startups individualmente, mas também dos ecossistemas dos quais elas fazem parte. Para isso, cada ambiente de inovação selecionado deverá indicar cinco startups de seu ecossistema para participar da missão

Juntos, ambiente e empresas terão um dia de exposição no Pavilhão Brasileiro, formando uma vitrine para apresentar ao público internacional diferentes polos de desenvolvimento tecnológico existentes no país

A participação em Lisboa dá continuidade à atuação da ApexBrasil no Web Summit Rio 2026, realizado em junho deste ano. Na ocasião, a agência apoiou quase 100 startups brasileiras em uma programação que incluiu apresentações para investidores, pitches, rodadas de negócios e conexões com o mercado internacional

Missão para Dubai 

Entre 5 e 15 de dezembro, a ApexBrasil promoverá a Missão de Startups à GITEX Expand North Star 2026, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos

A iniciativa selecionará 30 startups brasileiras para uma programação que vai além da participação no evento. As empresas passarão por uma etapa de preparação para a missão e contarão com espaço no Pavilhão do Brasil, serviço de matchmaking com potenciais clientes, investidores e parceiros estratégicos, além da possibilidade de participar da competição internacional de pitches Supernova Challenge

A agenda também inclui visitas técnicas ao ecossistema de inovação dos Emirados Árabes Unidos nos dias 14 e 15 de dezembro. A proposta é permitir que os participantes conheçam de perto o ambiente local, realizem benchmarking e identifiquem oportunidades para validação de mercado, desenvolvimento de projetos-piloto e expansão internacional

A presença em Dubai também reforça a conexão construída pela ApexBrasil com o ecossistema de inovação da região. Na GITEX Expand North Star 2025, a agência organizou a participação brasileira no evento, reunindo startups e hubs de inovação para apresentar soluções e estabelecer contatos com atores internacionais. 

Ecossistema brasileiro em expansão

O ecossistema de tecnologia e empreendedorismo brasileiro é formado por mais de 13 mil startups, mais de 120 fundos de venture capital, mais de 200 empresas, mais de 250 hubs de inovação e mais de 30 unicórnios, segundo levantamento da ApexBrasil. 

Em 2024, o país recebeu US$ 2,135 bilhões em investimentos de venture capital, distribuídos em 386 operações

Nesse cenário, a ApexBrasil busca aproximar empresas brasileiras de oportunidades de internacionalização e, ao mesmo tempo, conectar investidores estrangeiros ao potencial de negócios e inovação do país

Entre os serviços oferecidos pela agência estão o fornecimento de informações de mercado, ações de networking, conexão com potenciais parceiros e investidores e iniciativas de soft landing, voltadas a apoiar empresas em seu processo de entrada e adaptação a novos mercados

A presença internacional da ApexBrasil também contribui para ampliar essas conexões. A agência mantém escritórios no Brasil e no exterior, incluindo unidades em mercados estratégicos como Lisboa e Dubai, além de cidades como Bruxelas, Miami, São Francisco, Pequim e Xangai

Saiba mais em apexbrasil.com.br.

VEJA MAIS:

Pixel Brasil 61

Continue Lendo

Mundo

Indústria química brasileira mira diversificação de exportações diante de novas tarifas dos EUA

Abiquim aponta que setor já possui base diversificada de mercados internacionais que pode ser ampliada, ao avaliar Plano de Diversificação de Exportações “Caminhos + Negócios”, lançado pela ApexBrasil

Indústria química brasileira mira diversificação de exportações diante de novas tarifas dos EUA

A indústria química brasileira já conta com uma base diversificada de mercados internacionais que pode ser ampliada diante do novo cenário do comércio exterior. A avaliação é da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), que analisou o Plano de Diversificação de Exportações “Caminhos + Negócios”, lançado pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). A iniciativa ocorre em meio ao aumento das tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros. 

Em 2025, a indústria química nacional exportou US$ 15,5 bilhões, sendo US$ 2,13 bilhões destinados aos Estados Unidos (EUA) – o que representa 14% do total.

Apesar da relevância do mercado norte-americano, as exportações brasileiras para o país estão concentradas em alguns grupos de produtos. Cinco categorias respondem por mais de 74% das vendas químicas brasileiras aos EUA.

O principal grupo é o de outros químicos inorgânicos, que representou 43,7% das exportações para o mercado norte-americano, com US$ 931 milhões. Na sequência aparecem outros químicos orgânicos, com 12,5% e US$ 267 milhões; outros químicos diversos, com 9% e US$ 192 milhões; aditivos de uso industrial, com 5,7% e US$ 122 milhões; e materiais médico-hospitalares, com 3,6% e US$ 76 milhões.

Para o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro, o cenário reforça a necessidade de transformar a diversificação de mercados em uma estratégia permanente para o setor no Brasil.

“O Brasil não precisa partir do zero para diversificar suas exportações químicas. Já temos produtos, empresas e relacionamentos comerciais consolidados em diferentes mercados. O desafio agora é identificar onde existe espaço para ampliar essas vendas e criar condições para que a indústria brasileira consiga chegar a novos compradores com competitividade”, afirmou a Abiquim em nota.

Segundo a Abiquim, fora dos Estados Unidos, a indústria química brasileira mantém presença em países como China, Colômbia, Chile, México e Uruguai. Na Europa, Espanha, Itália e França também estão entre os mercados com participação das exportações do setor.

“Juntos, esses mercados representam uma base sobre a qual podem ser construídas novas oportunidades de negócios”, destacou a Abiquim.

Para a associação, essa presença pode ser utilizada para impulsionar o processo de diversificação. A estratégia envolve aprofundar relações comerciais existentes e aumentar a participação de produtos que hoje estão mais concentrados no mercado norte-americano, principalmente químicos orgânicos, aditivos industriais e materiais médico-hospitalares.

A entidade destaca que diversificar as exportações não significa necessariamente substituir o mercado dos Estados Unidos por outros destinos. A proposta é reduzir vulnerabilidades e, ao mesmo tempo, ampliar a participação brasileira onde já existe demanda e relacionamento comercial.

Plano de diversificação

Entre as iniciativas previstas no Plano elaborado pela ApexBrasil, a Abiquim avalia positivamente as rodadas de negócios, a consultoria especializada, a Bolsa Exportação e o Painel de Diversificação.

A entidade também defende a continuidade da articulação institucional em Washington para buscar a ampliação das isenções tarifárias para produtos brasileiros.

Na avaliação da associação, a combinação entre a defesa dos interesses da indústria brasileira no mercado norte-americano e a abertura de novas oportunidades comerciais pode ajudar o setor a preservar mercados e ampliar a inserção internacional da indústria química.

Pixel Brasil 61

Continue Lendo

Mundo

CNI: tarifas dos EUA derrubam exportações de 20 estados brasileiros

Entidade aponta queda de 8,7% nas vendas de produtos industriais aos Estados Unidos e alerta para perdas industriais decorrentes da nova tarifa adicional

CNI: tarifas dos EUA derrubam exportações de 20 estados brasileiros

No primeiro semestre de 2026, 20 dos 27 estados brasileiros registraram queda nas exportações para os Estados Unidos, reflexo das tarifas adicionais impostas pelo governo norte-americano desde o ano passado. A retração foi impulsionada pela redução de 8,7% nas vendas de produtos industriais, sobretudo de semimanufaturados de ferro e aço, ferro fundido bruto, pasta química de madeira não conífera, óleos de petróleo e semimanufaturados de outras ligas de aço. Os dados são da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

Na última quarta-feira (15), o governo dos Estados Unidos anunciou uma nova tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A medida, que passa a valer a partir do próximo dia 22 de julho, decorre de uma investigação iniciada em julho de 2025 com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana

Em junho deste ano, o Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu que práticas brasileiras relacionadas a comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao etanol e combate ao desmatamento seriam restritivas ao comércio estadunidense. 

Com base nessa avaliação, o governo norte-americano decidiu aplicar a tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, preservando uma lista de 2.126 códigos tarifários. Entre os itens isentos da medida estão café, suco de laranja e carne

O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirma que os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos já são percebidos pela indústria brasileira e tendem a se intensificar com a nova sobretaxa.

“Diante do anúncio de hoje, o cenário tende a piorar, corroendo ainda mais a competitividade da indústria brasileira. Não podemos poupar esforços para reverter essa lógica e retomar a relação que Brasil e Estados Unidos construíram”, afirma.

Estados mais afetados pela tarifa adicional

Apesar da queda nas exportações, os Estados Unidos seguem como o principal destino dos produtos da indústria de transformação brasileira no primeiro semestre de 2026. Por isso, a CNI avalia com preocupação o anúncio da nova tarifa de 25%, que tende a ampliar os impactos sobre a competitividade da indústria nacional e sobre os estados mais dependentes do mercado norte-americano. 

Confira as unidades federativas mais afetadas pela tarifa adicional de 25% e a parcela das exportações do setor sujeito à nova tarifa:

Estado Valor exportado aos EUA de Jan a Jun de 2026 (US$) Variação 26-25 % dos EUA nas exportações do estado
São Paulo 6,0 bi -4,3% 17,1%
Rio de Janeiro 2,9 bi 15,4% 10,3%
Minas Gerais 1,9 bi -18,9% 8,6%
Espírito Santo 1,4 bi -19,2% 27,5%
Rio Grande do Sul 744,3 mi -22,6% 7,6%
Santa Catarina 582,9 mi -32,9% 9,5%
Paraná 499,6 mi -32,9% 4,2%
Goiás 462,5 mi 42,1% 6,6%
Pará 416,7 mi -31,4% 3,2%
Bahia 373,2 mi -14,0% 6,3%
Mato Grosso do Sul 371,0 mi 13,7% 6,3%
Ceará 349,8 mi -36,9% 33,4%
Maranhão 332,9 mi -0,6% 14,8%
Mato Grosso 209,6 mi 25,8% 1,1%
Rondônia 127,9 mi 49,1% 6,2%
Sergipe 94,3 mi -35,9% 52,3%
Pernambuco 35,9 mi -33,4% 3,6%
Amazonas 35,8 mi -2,6% 6,1%
Rio Grande do Norte 27,0 mi -72,0% 4,2%
Tocantins 19,0 mi -52,1% 1,0%
Alagoas 15,5 mi -64,9% 4,4%
Piauí 11,6 mi -17,7% 2,4%
Paraíba 10,3 mi 5,9% 15,8%
Distrito Federal 5,5 mi 34,2% 3,0%
Amapá 2,8 mi -41,2% 4,0%
Acre 1,5 mi -62,8% 2,4%
Roraima 0,2 mi -33,7% 0,2%

Intensificação do diálogo

A gerente de Comércio e Integração Internacional da CNI, Constanza Negri, afirma que a ampliação da lista de produtos isentos da tarifa adicional reflete o trabalho conjunto realizado pelos setores privados brasileiro e norte-americano ao longo da investigação conduzida pelos Estados Unidos. 

“Por um lado, a ampliação das isenções trouxe alívio para os setores contemplados. Mas do ponto de vista geral da indústria, ainda está longe do cenário ideal, porque uma série de setores continuarão sendo taxados com uma alíquota adicional bem maior do que eles enfrentam hoje em dia”, diz.

Segundo Negri, mais de 50% das exportações brasileiras dos setores de madeira, minerais não metálicos e produtos químicos, por exemplo, passaram a enfrentar tarifas adicionais de, no mínimo, 25%

A especialista alerta que os impactos vão além do comércio exterior. “Se levarmos em consideração que as exportações brasileiras para os Estados Unidos são aquelas que mais geram emprego no Brasil, estamos diante de um cenário no qual a competitividade da indústria brasileira será colocada em risco e sob uma pressão adicional”, avalia.

Para a gerente da CNI, a prioridade deve ser intensificar o diálogo entre os dois países para buscar uma solução negociada. “É necessário intensificar o diálogo para se atingir um consenso com os Estados Unidos, para que possa ser revertido esse cenário atual, onde são gerados prejuízos para o lado brasileiro e os Estados Unidos”, orienta.

Negri acrescenta que a indústria brasileira segue atuando em parceria com o governo federal, fornecendo análises técnicas sobre os impactos das tarifas e discutindo alternativas para reduzir os efeitos da medida sobre a competitividade das exportações brasileiras

Governo brasileiro repudia tarifa

O governo brasileiro repudiou a decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Em nota divulgada pela Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República, o governo afirma que não reconhece a legitimidade da investigação que embasou a medida e argumenta que o processo não encontra respaldo nas regras do sistema multilateral de comércio. O texto também sustenta que não há justificativa para a adoção de medidas unilaterais contra o Brasil

“O dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável”, afirma a nota.

O comunicado informa ainda que o Brasil recorrerá aos instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade Econômica e voltará a acionar o mecanismo de solução de conflitos da Organização Mundial do Comércio (OMC)

VEJA MAIS:

Pixel Brasil 61

Continue Lendo

Destaques