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Falta profundidade na cobertura sobre feminicídios, diz pesquisadora 

Terezinha Silva disse que foram identificados avanços nas reportagens

Reportagens focadas em um crime específico, que ouvem apenas a polícia e não trazem à tona as raízes da violência contra a mulher na sociedade nem divulgam os serviços disponíveis para denúncia e proteção. Esse é um resumo dos problemas encontrados por pesquisadores e pesquisadoras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em um trabalho de análise de mais de 800 reportagens publicadas sobre feminicídio no estado, entre 2015 e 2021.

A análise, realizada nos anos de 2021 e 2022, foi feita pelo grupo de pesquisa Transverso – Estudos em Jornalismo, Interesse Público e Crítica, do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC. O trabalho rendeu o podcast “História mal contada – Os feminicídios na cobertura jornalística” e também um documentário, com o mesmo nome, disponível gratuitamente no YouTube.

Coordenadora do estudo, a professora da UFSC Terezinha Silva, diz em entrevista à Agência Brasil que o objetivo do trabalho era avaliar como a cobertura dos veículos de imprensa no estado iria se comportar a partir da Lei nº 13.104/2015, que reconheceu o feminicídio como um homicídio qualificado que envolve violência de gênero.

“Houve avanços importantes a partir de 2015. O próprio uso do termo feminicídio, e a maior visibilidade dos crimes, o que é importante. E há casos em que a reportagem dá um serviço da rede de proteção e canais de denúncias, que são questões importantes”.

Apesar disso, a pesquisadora aponta que predomina na amostra analisada, segundo ela, uma lógica que prioriza a quantidade de matérias em vez da qualidade da cobertura, que tem a ver com o modelo de negócio dos veículos jornalísticos, a redução do número de jornalistas nas redações e outros fatores.

Agência Brasil: Além de a UFSC ficar em Santa Catarina, vocês também entendem que o estado se destaca de alguma forma nos casos de feminicídio?

Terezinha Silva: Santa Catarina é um dos estados que tem o número mais significativo [de feminicídios], segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A taxa é superior à média nacional, que é de 1,2 casos para cada 100 mil mulheres. Santa Catarina tem 1,5. Para nós, isso é bastante significativo. E, para além de ser uma amostra de um estado, também corrobora outras pesquisas que vêm sendo feitas há alguns anos em outros estados e com abrangência nacional. Então, essa pesquisa corrobora outros dados e outros limites existentes em relação à cobertura jornalística. Parece que tem certos problemas que a cobertura jornalística não consegue superar. Se mantém um certo modelo de cobertura que prioriza a quantidade de notícias a respeito desses crimes em vez de um aprofundamento, de pautas mais aprofundadas a respeito do problema que está na base dos feminicídios, que é a violência de gênero. A cobertura acaba tratando cada caso como se fosse um caso isolado, episódico, e não como parte de uma trama mais ampla.

Agência Brasil: Apesar de a pesquisa estar ancorada em dados de Santa Catarina, a reflexão alcança todo o Brasil?

Terezinha Silva: A pesquisa percebe aspectos dessa cobertura jornalística que é feita mantendo certos problemas. A gente percebe avanços também, é verdade, mas é uma cobertura que prioriza a quantidade à qualidade e aprofundamento no tratamento dessas pautas relacionadas aos feminicídios.

Agência Brasil: Esse é o ponto central do trabalho? Que a cobertura está voltada ao registro do episódio e às informações do boletim de ocorrência?

Terezinha Silva: Esse é o ponto central, e esse aspecto não chega a ser uma grande novidade, porque outras pesquisas antes de nós e feitas em outros estados ou com dimensão mais nacionalizada já apontavam isso. Esse é o modelo de cobertura jornalística do qual parece ser difícil a imprensa se desvencilhar. E por que é tão difícil para a imprensa tratar com um pouco mais de contexto, maior problematização, trazendo fontes diferenciadas? Uma limitação acaba levando a outra. Por que é tratado de forma tão episódica? Porque as fontes de informação geralmente são as mesmas, as fontes policiais. Então, é muito difícil dar uma outra dimensão ao problema se você escuta só a polícia e se ela é a fonte central da notícia. É claro que a polícia é essencial, fazendo seu papel para solucionar o crime, mas ela não é a única fonte que poderia ser acionada e falar sobre o crime. Falta essa iniciativa da cobertura jornalística.

Agência Brasil: Essa falta está ligada de alguma forma à precarização do trabalho do jornalista e à falta de jornalistas nas redações?

Terezinha Silva: Com certeza. É um problema muito complexo. Não dá para a gente apenas dizer que não estão fazendo a cobertura como deveria. Não é tão simplista. Tem uma série de fatores que dificultam essa cobertura mais adequada. E isso decorre de uma série de problemas. Um deles, com certeza, é a precarização. As redações estão mais enxutas, os jornalistas cada vez mais sobrecarregados e também há toda uma geração mais inexperiente e jovem. Quando a gente é mais jovem, também não tem tanta experiência para tratar de determinadas questões. Mas também tem um básico do trabalho jornalístico que não é feito. Vi matérias muito incompletas, sem informações básicas. E aí há uma série de limitações dos profissionais que estavam fazendo a cobertura, por uma série de motivos, inclusive a precarização do trabalho. E a gente percebe que também, cada vez mais, falta especialização, com o profissional tendo que cobrir várias coisas ao mesmo tempo, de todas as áreas e para todas as mídias.

Agência Brasil: São muitas questões do modelo de negócio dos veículos jornalísticos que acabam negando uma discussão necessária à população, então?

Terezinha Silva: Essa lógica da produção industrial, de produção em quantidade, é contraproducente no sentido de que não aprofunda nada. Então, a gente tem uma grande quantidade de matérias produzidas, mas o aprofundamento é quase nenhum. E não é que não haja visibilidade para o problema. Tem sim. Todo dia tem um caso sendo noticiado. O problema tem visibilidade, mas não chega nesse outro nível, de sair da visibilidade em termos de quantidade para uma abordagem com qualidade, que seria um segundo nível. A visibilidade foi um ganho importante nesses anos através da Lei do Feminicídio. A gente observou alguns avanços também.

Agência Brasil: O próprio uso do termo feminicídio foi um dos avanços que vocês destacam.

Terezinha Silva: Exatamente. Esse foi um avanço importante. Ele não era muito notável logo nos anos seguintes à lei, em 2016 e 2017. Em 2018, foi um pouco mais e, em 2019, começou a ser muito mais usado. Ele começa a ter um uso quase generalizado, não apenas no âmbito da polícia e do Judiciário, mas também dos próprios jornalistas. A gente viu coisas interessantes, como o fato de que, em alguns casos, mesmo quando a polícia não usava o termo feminicídio na matéria, os jornalistas usavam em um título. Não havia mais uma dependência de que, primeiro, a polícia precisa definir que é feminicídio. A cobertura passou a se apropriar de uma forma mais generalizada, e isso é muito bom, porque é um aprendizado social tanto dos jornalistas quanto dos demais atores encarregados de tratar desse problema e da própria sociedade, que está lendo aquela matéria. As pessoas passam a entender que a raiz desse crime é a violência de gênero, que não é um homicídio como qualquer outro. E tem outras matérias que, apesar de serem absolutamente factuais, são boas matérias factuais e trazem, por exemplo, um serviço com a rede de proteção que existe e os telefones de denúncia. Isso é importante também. Mas falta na cobertura um pouco mais de cobrança do Poder Público sobre o por que esses crimes continuam acontecendo com tanta frequência.

Agência Brasil: Outro problema que vocês apontam é que na pressa de registrar apenas o episódio, fontes qualificadas deixam de ser ouvidas, como pesquisadoras do tema e ativistas feministas. O que o leitor deixa de receber como informação quando o jornalista não ouve essas pessoas?

Terezinha Silva: Os leitores deixam de entender que as políticas públicas são uma luta de muitos anos, e que os movimentos sociais há muitos anos reivindicam essa rede proteção e sua ampliação. E também que cortes de orçamento, por exemplo, em estados ou na União, tiram recursos dessa área de prevenção à violência contra as mulheres. Ouvir os movimentos sociais e pessoas que pesquisam há muitos anos dá aos leitores essa dimensão do problema, que o crime não é isolado e faz parte desse problema mais estrutural. Que isso vem sendo discutido há muitos anos no Brasil. Os feminicídios não surgiram em 2015, a partir do momento em que a lei passou a nomeá-los desse jeito. Isso acontece há muito tempo e ganha visibilidade maior agora. Ouvir outras fontes ajudaria a entender também que, muitas vezes, há um ciclo de violências que desencadeou aquele feminicídio, que era algo que poderia ter sido evitado. Isso, muitas vezes, é apenas tangenciado pela matéria. Muitas mulheres já tinham feito mais de dez boletins de ocorrência. Há mulheres que já tinham medida protetiva, inclusive. E, se tinha medida protetiva, como foi assassinada? O que nós, sociedade, estamos deixando de fazer para impedir que esse crime aconteça? É preciso cobrar isso do Estado.

Agência Brasil: E alguns casos saem dessa regra de ser noticiado apenas como um episódio isolado. Por quê?

Terezinha Silva: A maioria dos casos recebe até três matérias relativamente curtas, factuais e com tratamento superficial, sempre muito restrito às informações policiais. Alguns casos se destacam dessa média, e fomos olhar o porquê. Porque são casos que envolveram muita brutalidade ou envolviam um certo status social, seja da vítima ou do agressor. Um exemplo: era um advogado conhecido na cidade. Mas, tem um outro ponto que é bastante interessante, que tem a ver com a mobilização da sociedade, de movimentos sociais. Isso acaba contribuindo para que haja uma discussão do problema, porque outras fontes acabam tensionando e pressionando para que aquilo seja tratado de modo diferente. Identificamos esses três fatores para que um crime tenha mais repercussão sobre outros.

Agência Brasil: E quando ele tem mais repercussão, a discussão sobre o feminicídio vem à tona ou não?

Terezinha Silva: O fato de ter mais repercussão não significa que tenha maior aprofundamento. Identificamos que, nesses casos que envolvem movimentos sociais, por exemplo, sim. Mas, nos outros casos, não necessariamente. Tivemos um caso em Joinville, que foi o que mais repercutiu em termos de quantidade de matérias na nossa amostra, em que a discussão em termos de motivação de gênero no crime foi zero. Continuou sendo limitado às fontes de sempre. A polícia, para tratar das investigações, e aos familiares e pessoas próximas, para falar sobre a vítima e sobre a relação deles. Isso até gerou um pouco de discussão sobre o histórico de violência, mas não aprofundou muito. E, depois, o julgamento faz com que um monte de matérias seja produzida, mas restritas ao resultado.

Agência Brasil: A chegada de mais mulheres às redações está contribuindo para uma mudança da forma de discutir violência contra a mulher na imprensa?

Terezinha Silva: Contribui, sim. Talvez não apareça tanto ainda, mas tende a aparecer mais. No material que analisamos, temos catalogado quem era a jornalista ou o jornalista da matéria que foi produzida. A gente não fez esse recorte de quantas matérias eram assinadas por mulheres e assinadas por homens, mas a gente pode dizer que tinham matérias assinadas por mulheres que tampouco traziam esse aprofundamento, assim como tinham matérias assinadas por homens que se mostravam bastante completas. Mas, por que eu acho que a representatividade tende a influenciar? Porque se tem uma nova geração se formando nesse contexto todo dessa última década, de uma discussão mais intensa sobre questões de gênero. Não quero dizer que antes disso não havia jornalistas mais velhas e mais velhos sem essa perspectiva de gênero. Não é isso. O que quero dizer é que mesmo as mulheres atuando nas redações enfrentam resistências ao tratar certos casos e a trazer discussões de gênero para suas pautas. A gente sabe que não é algo consensual, que há uma disputa interna nas redações.

Edição: Carolina Pimentel

Fonte: EBC

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Indústria brasileira ganha projeção global na Hannover Messe 2026

Participação do Brasil é organizada pela ApexBrasil; iniciativa marca um reposicionamento estratégico da indústria nacional no cenário global

Indústria brasileira ganha projeção global na Hannover Messe 2026

A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) lidera a organização da participação do Brasil como país parceiro oficial da Hannover Messe 2026, a maior feira industrial do mundo, realizada na Alemanha. O evento está previsto para ocorrer entre os dias 20 e 24 de abril de deste ano.

A iniciativa marca um reposicionamento estratégico da indústria brasileira no cenário global, alinhado à política industrial retomada pelo governo do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e conduzida pelo vice-presidente e ministro do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin.

Retomada industrial e estratégia internacional

A decisão de assumir o papel de país parceiro ocorre em sintonia com a recriação do MDIC e com a implementação da política industrial Nova Indústria Brasil (NIB), que recoloca o setor produtivo no centro da estratégia de desenvolvimento nacional.

“O Brasil chega à Hannover Messe em um novo momento, com a retomada da política industrial liderada pelo presidente Lula e pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, por meio da Nova Indústria Brasil. Nosso objetivo é apresentar ao mundo um país competitivo, sustentável e inovador, capaz de atrair investimentos e de participar das grandes transformações tecnológicas que estão redefinindo a indústria global”, destaca o presidente da ApexBrasil, Jorge Viana.

“Dois anos atrás, nós, da direção da ApexBrasil, começamos a trabalhar com a direção da Hannover Messe a participação do Brasil neste ano de 2026. Daí o nosso interesse de levar o que o Brasil tem de novo, de inovação na indústria, para a maior feira industrial do mundo”, complementa.

A participação brasileira foi articulada pela ApexBrasil, em parceria com a Embaixada do Brasil em Berlim, o Ministério das Relações Exteriores e o MDIC.

“Toda a nossa indústria é baseada em uma matriz energética quase 100% renovável. Isso significa que produzir no Brasil, cooperar com o Brasil para a produção industrial, significa cooperar em prol de uma produção industrial com uma pegada de carbono cada vez menor. E isso hoje é um diferencial estratégico, é um diferencial competitivo”, explica Ana Repezza.

Com a implementação da NIB, o país voltou a contar com uma política industrial estruturada, baseada em inovação, competitividade, sustentabilidade e fortalecimento das cadeias produtivas. No primeiro ano do programa, a produção industrial cresceu 3,1%, com previsão de investimentos de R$ 300 bilhões até 2026.

O cenário macroeconômico também reforça essa trajetória. A inflação projetada para o período de 2023 a 2026 tende a ser a menor desde o Plano Real, enquanto a taxa de desemprego se aproxima de 5%, segundo dados recentes. O Índice de Gini atingiu o menor nível da série histórica, indicando redução da desigualdade e ampliação do consumo.

Vantagens competitivas e transição energética

O Brasil se destaca globalmente na agenda de transição energética e descarbonização. Quase 90% da eletricidade do país provém de fontes renováveis — uma das matrizes mais limpas do mundo.

Além disso, o país possui a segunda maior reserva global de terras raras, insumos essenciais para tecnologias como veículos elétricos, turbinas eólicas, baterias e semicondutores.

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Essa combinação de energia limpa, recursos naturais estratégicos e base industrial fortalece o posicionamento do Brasil como destino relevante para investimentos internacionais voltados à economia de baixo carbono.

O ambiente econômico favorável também se reflete na confiança externa. O Brasil já ocupou a quarta posição entre os maiores destinos de investimento estrangeiro direto no mundo, com ingressos superiores a US$ 60 bilhões em um único ano.

No comércio exterior, o país registra resultados históricos, com recordes de exportações e superávits na balança comercial, evidenciando competitividade e integração às cadeias globais.

Estrutura da participação brasileira na feira

Na Hannover Messe 2026, o Brasil terá sua maior participação já registrada. Serão seis pavilhões, reunindo 140 empresas expositoras e mais de 300 participantes, em uma área total de 2.700 m².

Os espaços serão distribuídos em diferentes halls temáticos:

  • Startups, Pesquisa & Hidrogênio (Hall 11)
  • Energia & Armazenamento (Hall 12)
  • Digitalização & Software (Hall 16)
  • Soluções Industriais & Economia Circular (Hall 17)
  • Automação, Robótica, IA & Segurança Digital (Hall 26)
  • Componentes & Automação (Hall 27)

A iniciativa busca ampliar a visibilidade internacional da indústria brasileira e consolidar o país como polo de tecnologia, inovação e negócios.

Acordo Mercosul–União Europeia

A perspectiva de implementação do acordo entre Mercosul e União Europeia adiciona uma dimensão estratégica à participação brasileira. O bloco combinado representa um mercado de mais de 700 milhões de consumidores e um PIB estimado em cerca de US$ 22 trilhões, ampliando oportunidades de comércio, investimento e integração produtiva.

Como país parceiro oficial, o Brasil se apresenta como uma potência industrial sustentável e inovadora, combinando indústria, startups, centros de pesquisa e matriz energética limpa para oferecer soluções em digitalização, descarbonização, transição energética e manufatura avançada.

Apoio institucional e articulação

A iniciativa conta com o apoio de instituições como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), a Vale, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Confederação Nacional do Transporte (CNT) e a Volkswagen.

Também participam entidades estratégicas como Embraer, Confederação Nacional da Indústria (CNI), AHK Brasil, Deutsche Messe, ABIMAC, ABINEE e Softex.

Essa articulação entre governo, setor produtivo e instituições reforça uma agenda comum voltada à inovação, sustentabilidade e inserção internacional do Brasil — posicionando o país como protagonista na indústria do futuro.
 

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Acordo Mercosul–UE pode destravar US$ 43,9 bilhões em exportações brasileiras

Estudo da ApexBrasil aponta oportunidades em 25 países e destaca setores industriais com maior potencial de crescimento

Acordo Mercosul–UE pode destravar US$ 43,9 bilhões em exportações brasileiras

Com a promulgação do Decreto Legislativo 14, de 2026, que trata do Acordo Provisório de Comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE), o Brasil dá um passo importante para que as relações de importação e exportação entre os dois blocos possam contar com a previsão de redução ou eliminação gradual de tarifas.

O texto foi promulgado pelo Congresso Nacional na terça-feira (17), garantindo a aprovação interna do acordo. Vale destacar que o acordo só será efetivamente ratificado com o depósito do instrumento de ratificação junto à União Europeia.

Para o ministro das Relações Exteriores, embaixador Mauro Vieira, a medida é oportuna, especialmente em um contexto de “forte fragmentação da ordem internacional”. Na avaliação dele, os benefícios do acordo vão além das dimensões econômicas e comerciais.

“Em um mundo marcado pelo protecionismo e pelo unilateralismo, a ampliação da parceria entre o Mercosul e a União Europeia possui enorme relevância geoestratégica, aproximando ainda mais duas regiões que possuem valores comuns, como a defesa do multilateralismo, do direito internacional e dos direitos humanos. Este êxito também demonstra a força do Mercosul”, disse.

Segundo o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Jorge Viana, o acordo representa um marco para o comércio exterior brasileiro, ao proporcionar maior previsibilidade e segurança jurídica às relações comerciais.

“Nós temos muito potencial ao longo do tempo para crescer, porque a participação dos produtos brasileiros na União Europeia ainda tem uma margem muito grande para isso. Vamos pegar um exemplo: o nosso mercado de exportação de mel é de 100 milhões de dólares. A União Europeia impõe uma barreira sanitária ao nosso mel que não tem explicação, pois é quase uma barreira econômica. Assim, estamos praticamente 100% fora da União Europeia. Com o acordo, poderemos exportar mel para lá”, destacou.

Oportunidades para empresas brasileiras que desejam exportar

Com o acordo firmado entre o Mercosul e a União Europeia, espera-se a ampliação das exportações brasileiras para o mercado europeu. Nesse contexto, a ApexBrasil elaborou um estudo estratégico com o objetivo de identificar mercados e oportunidades de negócios para o setor produtivo nacional, aproximando ainda mais os dois blocos.

Intitulado “Estudo de Oportunidades Mercosul–União Europeia”, o levantamento apresenta perspectivas em 25 países europeus. As oportunidades estão organizadas em quatro grandes regiões do continente:

  • Europa Ocidental – 266 oportunidades e US$ 27,6 bilhões em importações anuais;
  • Europa Meridional – 123 oportunidades e US$ 7,8 bilhões em importações anuais;
  • Europa Oriental – 101 oportunidades e US$ 6,4 bilhões em importações anuais;
  • Europa Setentrional – 53 oportunidades e US$ 1,9 bilhão em importações anuais.

De acordo com o estudo, os setores com maior potencial para impulsionar as exportações incluem máquinas e equipamentos de transporte, artigos manufaturados, produtos químicos e obras diversas, como partes para calçados, óculos de sol e joias de ouro ou prata.

Em conjunto, esses segmentos representam um mercado potencial de US$ 43,9 bilhões em importações anuais da União Europeia. Atualmente, o Brasil exporta cerca de US$ 1,1 bilhão desses produtos para o bloco.

A União Europeia é apontada como o maior investidor estrangeiro no Brasil, com um estoque superior a US$ 464 bilhões em Investimento Direto Estrangeiro (IED), o que corresponde a mais de 40% do total recebido pelo país.

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O levantamento também indica que o acordo cria um mercado integrado de aproximadamente 720 milhões de consumidores. Além disso, os dois blocos passam a formar um PIB agregado estimado em US$ 22 trilhões, contribuindo para o reposicionamento do Brasil no maior mercado importador do mundo, especialmente por meio da eliminação tarifária imediata em diversos setores.

Impactos positivos nas próximas décadas

O acordo poderá trazer impactos positivos para a economia brasileira ao longo das próximas décadas, com projeções até 2044. Estimativas da ApexBrasil apontam que o PIB do país poderá crescer 0,34%, o equivalente a cerca de R$ 37 bilhões em valores de 2023.

O setor de investimentos deve registrar alta de 0,76% (R$ 13,6 bilhões), enquanto o poder de compra da população deve aumentar ligeiramente, com crescimento de 0,42% nos salários reais. Além disso, o acordo poderia reduzir os preços ao consumidor em 0,56%, sugerindo um efeito positivo sobre a inflação.

No comércio exterior, as exportações brasileiras devem crescer 2,65%, cerca de R$ 52,1 bilhões, enquanto as importações podem subir 2,46%, ou R$ 42,1 bilhões.

Sobre o Acordo de Parceria Mercosul–União Europeia

Em dezembro de 2024, líderes do Mercosul e da União Europeia anunciaram a conclusão das negociações do Acordo de Parceria entre os dois blocos. O anúncio, realizado em Montevidéu, deu início à etapa de preparação dos textos que serão encaminhados para assinatura e posterior ratificação.

Segundo dados divulgados pelo Ministério das Relações Exteriores, Mercosul e União Europeia somam, juntos, cerca de 718 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto (PIB) aproximado de US$ 22 trilhões.

Reconhecido como um dos maiores acordos bilaterais de livre comércio do mundo, o tratado tende a ampliar a diversificação das parcerias comerciais do Brasil — um ativo estratégico para o país —, além de incentivar a modernização do parque industrial nacional, promovendo sua inserção nas cadeias produtivas da União Europeia.

O acordo também contempla a criação de um mecanismo de reequilíbrio de concessões. Dessa forma, a relação entre os blocos econômicos passa a oferecer mais garantias e segurança aos exportadores, especialmente caso medidas internas da União Europeia venham a comprometer o aproveitamento efetivo das vantagens previstas no acordo.
 

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Empresários discutem oportunidades do acordo Mercosul-UE após aprovação no Senado

Fórum na Associação Comercial de São Paulo reúne lideranças políticas e empresariais para preparar empresas brasileiras para o mercado europeu

Empresários discutem oportunidades do acordo Mercosul-UE após aprovação no Senado

Nesta quarta-feira (4), dia em que o Senado aprovou o Acordo Provisório de Comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE), empresários, parlamentares e embaixadores se reuniram na sede da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), na capital paulista, para participar do “Fórum de Integração Mercosul-UE: Liderança e Mobilização Nacional”.

O encontro marcou o início da agenda de implementação do acordo e convocou entidades empresariais e instituições para se prepararem para aproveitar as oportunidades de acesso ao mercado europeu.

Na ocasião, o presidente eleito da ACSP, Alfredo Cotait Neto, que também preside a Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), destacou a importância de que os empreendedores brasileiros — especialmente de pequeno e médio porte — se preparem para o período de implementação do tratado e para a abertura do novo mercado.

Segundo dados do governo federal, Mercosul e UE somam cerca de 718 milhões de consumidores e um Produto Interno Bruto (PIB) conjunto de aproximadamente US$ 22,4 trilhões (cerca de R$ 117,15 trilhões).

Para Cotait, para que o Brasil aproveite plenamente as oportunidades do acordo, as empresas brasileiras precisam se preparar para competir em igualdade de condições com as companhias europeias.

“Existem grandes oportunidades. Mas tem que haver investimentos em capacitação, inovação, conhecimento e preparo sobre as condições e os padrões que cada mercado exige para você poder oferecer seus produtos. Você também precisa estar dentro dos padrões mundiais de sustentabilidade, rastreabilidade e segurança alimentar”, ressaltou.

Também presente no evento, o economista e cientista político Marcos Troyjo ressaltou que acordos de livre comércio costumam estimular reformas internas nos países participantes.

“Além dos benefícios de investimentos e de comércio exterior, o fato de competir em um nível superior já força os países a fazerem reformas internas”, disse o professor, que foi um dos principais interlocutores das negociações da finalização do Acordo Mercosul-União Europeia.

Papel das associações

Segundo Cotait, ainda falta ao Brasil e aos demais países do Mercosul um projeto estruturado de incentivo ao comércio exterior que amplie a participação das pequenas empresas nas exportações. Nesse cenário, as associações comerciais e empresariais, coordenadas pela CACB, podem desempenhar um papel estratégico.

“[A CACB] tem o papel de orientar, ajudar na capacitação, promover reuniões, preparar missões, fazer acordos com as nossas contrapartes dos países da comunidade europeia, para que as pequenas empresas possam encontrar os seus parceiros e iniciar um processo de ganha-ganha no comércio exterior”, explicou.

Paulo Bornhausen, conselheiro do Conselho Político e Social da ACSP e secretário de Articulação Internacional do governo de Santa Catarina, destacou o papel histórico da entidade paulista na mobilização do setor privado ao longo dos 25 anos de negociação do acordo.

“Não é liderar por liderar. É juntar forças para mostrar à União Europeia a nossa perspectiva sobre o acordo e as vantagens que ele trará para as duas partes. Portanto, esperamos que o texto seja aprovado definitivamente, daqui a um ano e meio, dois anos, no Parlamento Europeu — algo que nós estamos fazendo hoje aqui, no parlamento brasileiro, e nos outros países do Mercosul.”

O que diz o acordo

O acordo entre Mercosul e União Europeia estabelece a eliminação imediata ou gradual de tarifas de importação para a maior parte dos produtos comercializados entre os blocos. Pelo texto, o Mercosul eliminará tarifas para 91% dos produtos europeus, de forma imediata ou ao longo de períodos de 4, 8, 10 ou 15 anos. Já a União Europeia removerá tarifas sobre aproximadamente 95% das exportações do Mercosul, com prazos que variam entre implementação imediata e até 12 anos.

Assim que o acordo entrar em vigor, diversos produtos industriais do Mercosul passarão a ter tarifa zero no mercado europeu, incluindo:

  • máquinas e equipamentos;
  • automóveis e autopeças;
  • produtos químicos;
  • aeronaves e equipamentos de transportes.

No setor agrícola, haverá cotas com tarifas reduzidas para produtos como: carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol.

Outros pontos do tratado incluem:

  • Produtos beneficiados não poderão estar associados a desmatamento ilegal, sob risco de suspensão do tratado em caso de violação do Acordo de Paris;
  • A União Europeia poderá reintroduzir tarifas temporariamente caso as importações cresçam acima de determinados limites e/ou os preços ficarem muito abaixo do mercado europeu;
  • Empresas do Mercosul poderão participar de licitações públicas na UE;
  • Haverá redução de custos e burocracia para pequenos exportadores.

A ex-ministra da Agricultura e atual senadora Tereza Cristina (PP-MS) afirmou durante o encontro que “o acordo não é perfeito” e envolve concessões de ambos os lados. “Vai ter impacto em tantos setores, que talvez nós nem consigamos enxergar nesse momento. Só no decorrer do tempo e com a implementação é que vamos saber o que o tratado vai trazer de oportunidades para o Mercosul”, avaliou.

Tramitação

Após a assinatura do tratado em 17 de janeiro de 2026, o texto foi enviado pelo Poder Executivo ao Congresso Nacional na forma do Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 41/2026. A proposta passou pela Representação Brasileira no Parlamento do Mercosul (Parlasul) e pela Câmara dos Deputados antes de ser aprovada pelo Senado. Agora, o texto segue para promulgação pelo presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre (União-AP).

Entre os países do Mercosul, o acordo já foi ratificado por Argentina, Uruguai e Brasil, restando apenas a aprovação pelo Paraguai.

Na UE, a Comissão Europeia anunciou, em 27 de fevereiro, que pretende iniciar a aplicação provisória dos termos comerciais do acordo antes mesmo da ratificação completa por todos os parlamentos nacionais.

Apesar disso, o Parlamento Europeu encaminhou o texto para análise da Corte de Justiça da União Europeia, que poderá levar até dois anos para avaliar a legalidade. Países como França, Hungria, Áustria e Irlanda já manifestaram oposição ao acordo.

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