Apoiada pela Lei Rouanet, Orquestra Brasileira de Cantores Cegos já gerou mais de 300 postos de trabalho
Grupo musical brasileiro que conta com apoio da Lei Rouanet chega à quarta temporada com foco na inclusão, na diversidade de ritmos e no patrimônio imaterial do país
Única formação musical composta integralmente por cantores com deficiência visual em todo o mundo, a Orquestra Brasileira de Cantores Cegos consolida uma trajetória de inovação artística e inclusão cultural ao estrear a quarta temporada de apresentações. A iniciativa é viabilizada pela Lei Rouanet, o mecanismo de incentivo fiscal do Ministério da Cultura (MinC) que aprovou a captação de R$ 1 milhão para a execução da nova etapa do projeto.
O espetáculo, intitulado Repertório #04, aprofunda a pesquisa sobre o patrimônio imaterial brasileiro e reúne 16 arranjos originais com 17 canções. A seleção abrange manifestações regionais de Norte a Sul do país, com destaque para o congo do Espírito Santo, o Coco de Tebei de Pernambuco, a Bata do Feijão do Maranhão, chulas baianas e tradições de trabalho agrícola de Alagoas, Sergipe e Minas Gerais. A montagem expressa a diversidade étnica e territorial do Brasil ao incorporar a musicalidade das comunidades quilombolas Kalunga, em Goiás, e de etnias indígenas como os Mehinako, do Xingu, os Guaranis do Rio de Janeiro e os Kaingang.
Com a adição do novo programa, o acervo da orquestra alcança 66 arranjos e mais de 73 obras musicais que refletem a tradição oral do grupo.
A pesquisadora Renata Mattar organizou a seleção musical com foco em cantos de trabalho agrícolas e rituais coletivos. “Nos meses de pesquisa e de seleção das cantigas, só pude pensar em escolher as mais belas melodias, mas também cantigas que criassem conexões com os cantores, que fizessem sentido para eles”, explica. A profissional acrescenta a motivação da escolha temática. “Pensei logo em um caminho para me guiar: que foi o dos cantos de trabalho, com a certeza de que esse repertório reverbera no corpo, na voz, criando imagens, trazendo memórias ancestrais, encontrando significados dentro de cada um”, completou.
A encenação reúne 25 artistas no palco, com 13 cantores cegos e quatro com baixa visão, seis atores da Cia Poéticas da Cena Contemporânea, um pianista e o regente. A diretora cênica Rejane Arruda utiliza recursos como iluminação em alto-contraste, projeção de sombras e deslocamentos espaciais do coro. Rejane Arruda avalia o impacto da condição dos artistas sobre o resultado cênico: “Eu sempre brinco com eles que eles têm um a mais, e não um a menos, porque esse não ver implica numa performatividade, numa tematização do olhar, da existência e da percepção do mundo”. A diretora define a proposta artística da montagem. “É uma espécie de retrato do Brasil em forma de canção”, finaliza.
Para orientar os cantores no palco sem o uso da regência visual, o maestro Thomas Davison criou uma técnica pautada em estalos de dedos, palmas, batidas de pés no chão e rotações do tronco. Os estímulos sonoros e corporais indicam os momentos de entrada das vozes e a movimentação do coro pelos quatro naipes. Thomas Davison relata o processo de adaptação do método de trabalho. “Sou maestro há alguns anos, mas neste caso precisei ressignificar todos os conceitos de regência aplicados até então. Sou como os seus olhos, sou a partitura que eles precisam ler”, explicou.
A elaboração dos arranjos vocais, assinada por Tarita de Souza, combina o canto coral e a música instrumental com ruídos cotidianos dos integrantes, a exemplo da batida das bengalas no piso.
O projeto também promove o reconhecimento profissional e a inclusão de pessoas com deficiência no mercado cultural. A cantora cega e integrante do coro, Joseni Vitorino, destaca o efeito do trabalho na carreira do grupo. “Somos valorizados em mostrar o nosso potencial escondido ou até mesmo desacreditado, e hoje somos reconhecidos e tratados como artistas”, destaca.
Por sua vez, a também cantora cega e integrante do coro, Lucinéia Santos, enfatiza o direito à igualdade de oportunidades. “Nós, além de termos uma característica, que é a deficiência, não somos a deficiência. Somos eficientes e podemos estar nos lugares onde nos dão oportunidades. Eu me encontrava meio perdida, sozinha, tentando reerguer novamente a minha vida. E a Orquestra foi um rumo”.
Também compondo o grupo, a cantora contralto cega e integrante do coro, Maria das Graças, relata a mudança na autoestima após participar do grupo musical. “Cheguei na orquestra com uma perda muito significativa da visão, eu estava com a autoestima muito baixa. E estar ali junto com outros componentes, tudo mudou. A música é o meu ar”, afirmou.
A gestão do projeto fica a cargo da Associação Sociedade Cultura e Arte (SOCA Brasil), instituição sediada em Vila Velha (ES). Desde a criação da proposta, em 2023, os shows registraram o público de 11 mil pessoas, o transporte gratuito de turmas da rede pública de ensino aos teatros e a criação de mais de 300 postos de trabalho diretos para artistas e técnicos.
Rouanet nas Favelas 2 recebe 587 propostas e prevê investimento de R$ 10 milhões
Iniciativa selecionará, ao menos, 50 projetos culturais em favelas e comunidades urbanas
O programa Rouanet nas Favelas 2 encerrou, nesta terça-feira (13), o período de inscrições com 587 propostas culturais válidas registradas nas oito unidades federativas contempladas pelo edital. A iniciativa, realizada pelo Ministério da Cultura (MinC), em parceria com a Vale e a Central Única das Favelas (Cufa), prevê investimento de R$ 10 milhões, por meio do mecanismo de incentivo fiscal da Lei Rouanet, para apoiar a realização de projetos culturais em favelas e comunidades urbanas brasileiras.
Entre as localidades abrangidas pelo edital, o Rio de Janeiro registrou o maior número de propostas, com 154 inscrições, o equivalente a 26,2% do total. Na sequência aparecem São Paulo, com 131 projetos (22,3%), e o Distrito Federal, com 64 (10,9%). O Maranhão contabilizou 62 propostas, seguido por Minas Gerais (55), Pernambuco (54), Pará (47) e Espírito Santo (20).
No comparativo com outros programas especiais, o Rouanet nas Favelas 2 ocupa a quinta posição em número de inscrições de propostas, atrás do Rouanet Nordeste (2,8 mil), Rouanet Centro-Oeste (1.270), Rouanet Norte (1.074) e Rouanet da Juventude (988). O quantitativo representa crescimento de 100,3% em relação à primeira edição do programa, que recebeu 293 propostas em 2024, e supera o resultado do Rouanet no Interior (213).
A segunda edição do Rouanet nas Favelas prevê a seleção de, pelo menos, 50 projetos culturais, com limite de R$ 200 mil por proposta. O edital estabelece uma reserva mínima de R$ 1 milhão para cada uma das oito regiões participantes, com o objetivo de distribuir os recursos entre os territórios contemplados.
O programa contempla iniciativas voltadas a diferentes linguagens e manifestações culturais, como música, teatro, dança, artes visuais, audiovisual, literatura e patrimônio cultural. As atividades devem ocorrer em territórios classificados como favelas e comunidades urbanas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), conforme os critérios previstos no edital.
Próximas etapas
Com o encerramento das inscrições, o programa entra na fase de análise das propostas, conforme os procedimentos e critérios estabelecidos no edital. O resultado provisório da seleção está previsto para até 27 de novembro de 2026, seguido pelo período de apresentação de recursos, com prazo até 7 de dezembro.
A publicação do resultado final está prevista para até 30 de dezembro de 2026. Os projetos selecionados deverão iniciar suas atividades entre maio de 2027 e dezembro de 2028, de acordo com as condições e os prazos de execução estabelecidos pelo programa.
O edital completo, os critérios de participação e as demais informações sobre as etapas de seleção estão disponíveis na página do Rouanet nas Favelas 2, no site do Ministério da Cultura.
MICSUL 2026: confira os empreendedores culturais e criativos habilitados para integrar a delegação brasileira
63 habilitados representam diferentes segmentos da Economia Criativa e todas as regiões do país.
O resultado final da fase de habilitação do Chamamento Público nº 08/2026 para o Mercado das Indústrias Culturais do Sul (MICSUL 2026), já está publicado. Foram selecionados 65 empreendedores culturais e criativos para integrar a delegação brasileira, dos quais dois proponentes desistiram na etapa de habilitação e foram substituídos pelos suplentes.
Os habilitados representam diferentes segmentos da Economia Criativa e todas as regiões do país.
Confira a lista dos habilitados
Proponente
Empreendimento representado
Ado Viana
Mobox Produções Ltda.
Alex Lima
FILO – Festival Internacional de Londrina / Usina Cultural
Alina Maria do Amaral Lima Tenorio
Alina Amaral
Ana Cristina Dias
ELA – Encontro Latinoamericano de Teatro de Minas Gerais
Ana Laura Meneses Canedo
Shiva Cultural Ltda.
Ana Luiza Gern
Ana Gern: Design feito à mão
Anair Lima Gonçalves
ÍNARU ÉYAWA
Andrey do Amaral
Pergunta Fixar Editora Produtora de Arte, Educação e Cultura LTDA-ME
Armênia Rocha
Iara G R Viana Luminarias ME
Arthur Moura
Coletivo Cida – Coletivo Independente Dependente de Artistas
Bruno Zanoni dos Santos
Grupo Stenna
Caio Hudson Morais Silva
Itsy Bitsy Game Studio
Camila Loren dos Santos Galvão
Atelier Camila Loren
Camila Nunes
Lanterna Mágica: Festival Internacional de Animação de Goiânia
Camilla da Rocha Campos
Fundação Eva Klabin Rapaport para Fins Culturais
Carolina Herszenhut
Aborda Produções Culturais Ltda.
Dane Nazareno
Cacuri Cultural
Danielle Pampolha Roveré
Editora Azul de Saturno
Dannoelly Chistinnny Silva Cardoso
Danno Artes
Dayana Silva Rodrigues Cabral
Nalimo
Diego Coiro Tortorelli
Mapa Produtora
Ester Menezes
Coletivo Moingobé
Felipe Fiuza
Felipe Fiuza Cardoso
Fernando Stefano
Alopra Estudio Ilustrações e Animações Ltda. – ME
Gilmar Kaminski
Súbita Companhia de Teatro
Gislaine Vieira da Silva
Artesã.kaingang
Giusy De Luca
Mucha Tinta
Guilherme Haenisch
NAT20 Games Ltda.
Gustavo Macedo Freitas
Saturno Cultural
Hulda Rode Alves Amaral
Escreva Editora e Livraria Ltda.
Iassonara de Oliveira Veríssimo
APORI – Associação dos Povos Originários
Janaina Lobo Gonçalves
JUNTA Festival – Dança e Contemporaneidade
Jeft Dias
Instituto Psica
José Lucio Mattos da Gama
Ikone Soft Programas de Computador Ltda. (ICON Games)
Juliana Bordallo
Bordallo Cultural
Kaji Waurá
Arte Kamaluhai Yerupoho
Karla Alessandra Florencio Suarez
ColetivA DELAS
Leda Simone da Costa Alves
Rome Feiras e Produções Ltda.
Lídia Abrahim
SEIVAMAZON Design
Luana Kayodè
AfrontArt – Quilombo Digital de Artes
Lucimar Maldonado Silva
FIBRA MORENA
Mabelly Venson
Toma Aí Um Poema
Márcio Melo da Silva Muhlstedt
FESEEE – Federação Sergipana do Estado de Sergipe de Esporte Eletrônico
Maria de Fatima Pontes
Grande Circo Arraial – Escola Pernambucana de Circo
Marina Anderle Giongo
CÓS Costura Consciente e Design Sustentável
Marina Bigardi
Leste
Marlice Machado de Oliveira
Marlice Machado de Oliveira
Marlone Santana
Serigy Comics
Matheus José da Silva
Editora Vecchio
Nadia Maria Ferreira de Sousa
Mercúrio – Gestão, Produção e Ações Colaborativas
Paulo Zé Barcellos Filho
Festival Morrostock – Nomad Produções Ltda.
Rafael dos Reis Fernandes
Quafá Produções
Rafael Fernandes
Maniva Studio
Rafael Vieira Bragança
Instituto dos Sonhos
Raphael Gustavo da Silva
É Nóis Ki Tá Produções
Renée Chalu
Se Rasgum Produções
Shirlei Arara
IS KARO
Tainah Fagundes
Da Tribu
Taís Rocha Ribeiro
Aimotech Game Studio
Tathi Carla Almeida
Abebe Films CO Ltda.
Tiago Alchuffi
Thear
Vanderley Pinheiro
Associação dos Artistas Circenses do Amazonas
Valtemir Cedro
Sem Fronteiras Cultura Viva Ltda.
Walter Luiz Jardim Rodrigues
Editora Itacaiúnas
Wes Gama
Wes Gama Ltda.
Preparação para o MICSUL
Antes da realização do mercado, os integrantes da delegação brasileira participarão de atividades de preparação promovidas pelo Ministério da Cultura, por meio da Secretaria de Economia Criativa.
A primeira reunião da delegação está prevista para a próxima semana, em formato on-line. A partir da segunda quinzena de outubro, serão iniciadas as capacitações prévias, com conteúdos voltados à participação no mercado internacional, incluindo negociação, apresentação de portfólio, estratégias de comercialização, formação de redes e cooperação internacional.
Sobre o MICSUL
O Mercado das Indústrias Culturais do Sul (MICSUL) 2026 será realizado de 19 a 22 de novembro, em Assunção, no Paraguai.
O evento reúne empreendedores culturais e criativos de diferentes países em atividades de formação, intercâmbio, networking e negócios. A programação inclui conferências, palestras, painéis, pitchings, oficinas, rodadas de negócios e showcases.
A delegação brasileira participará das atividades formativas e das rodadas de negócios, ampliando as possibilidades de intercâmbio e circulação internacional de bens e serviços culturais.
Ancine adota Malha Fina como modelo permanente de análise de prestações de contas
Modelo reconhecido pelo TCU como boa prática de gestão se consolida e entra em sua 3ª fase
Ancine aprovou a institucionalização do Malha Fina como modelo permanente de análise de prestações de contas de projetos audiovisuais financiados com recursos públicos geridos pela Agência. Em conjunto com a análise manual, o modelo passa a integrar de forma permanente os procedimentos de análise da Ancine, com avaliação anual dos ciclos e dos conjuntos de projetos a serem submetidos à metodologia.
A decisão também autoriza a aplicação do Malha Fina no ciclo 2025-2026, dando continuidade à estratégia de modernização e aumento da eficiência das análises.
O novo ciclo de aplicação do Malha Fina alcança 499 projetos, correspondentes a aproximadamente R$ 710 milhões em recursos captados ou contratados.
Desenvolvido pela Ancine em parceria com a Controladoria-Geral da União – CGU, o Malha Fina adota uma abordagem híbrida, combinando critérios de materialidade, análise de riscos, trilhas automatizadas, modelo preditivo e análises individualizadas, de acordo com as características dos projetos.
O modelo preserva tanto a verificação do cumprimento do objeto quanto os controles sobre a execução financeira, combinando procedimentos automatizados e análises individualizadas e mantendo a capacidade da Ancine de identificar irregularidades e adotar, quando cabíveis, as medidas de responsabilização.
O aprimoramento dos procedimentos de análise e fiscalização também integra a Agenda Regulatória da Ancine, a exemplo da revisão do procedimento de análise do cumprimento do objeto dos projetos audiovisuais.
Consolidação de resultados
Os resultados acumulados demonstram a dimensão da transformação. Entre 2024 e 2026, aproximadamente 6,1 mil prestações de contas foram analisadas e concluídas, permitindo superar cerca de 90% do passivo histórico. A mudança de metodologia representou uma redução equivalente a mais de 40 anos de trabalho manual, quando comparada aos modelos anteriores, e uma economia estimada superior a R$ 1,5 bilhão em custos administrativos evitados.
O passivo ativo foi reduzido para 619 processos, com estimativa de conclusão em pouco mais de três anos.
O avanço alcançado pela Ancine também foi registrado pelo Tribunal de Contas da União – TCU. No Acórdão nº 726/2026-TCU-Plenário, o Tribunal reconheceu o Malha Fina como boa prática de gestão e destacou a combinação do modelo preditivo de aprendizado de máquina, da priorização por materialidade financeira e dos controles por trilhas automatizadas como uma abordagem moderna, transparente e baseada em risco. O TCU registrou, ainda, que a Agência analisou, em 2024 e 2025, mais processos do que nos 15 anos anteriores somados.
A institucionalização estrutura o Malha Fina, inicialmente concebido para o enfrentamento do passivo histórico, como modelo permanente de análise das prestações de contas da Ancine, em conjunto com a análise manual e em constante avaliação e aprimoramento. Novos conjuntos de projetos serão tratados periodicamente com base em risco e materialidade, e os resultados de cada ciclo serão utilizados para avaliar o desempenho dos instrumentos empregados e subsidiar ajustes nos ciclos seguintes.
A medida consolida uma mudança estrutural na gestão das prestações de contas da Ancine: o uso de tecnologia, dados e análise de riscos para ampliar a capacidade de controle, reduzir o tempo de análise e concentrar o esforço técnico nos processos que demandam maior aprofundamento.
Transparência
A Ancine disponibiliza um painel interativo com informações detalhadas sobre o andamento e os resultados do Malha Fina, permitindo consultas públicas com filtros específicos e reforçando seu compromisso com a transparência e a governança.
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